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Thursday, October 30, 2003

Quebra as janelas crepusculares
O vento dos sinos

Melífluo em minha pele dormente
O beijo dos insectos

Enreda indigestos meus sonhos tua voz
Poeira amarga

Precioso o hálito solitário de minhas ilusões
Saliva dos teus sentidos

No dorso do meu mundo arrepiada
Miríade de demónios alados




Disfórica a nora revolve os dias a hora
Sozinha que tu alumias
Lúbrico fantasma da luz estilhaçada no vão da
Noite
Quer emprestar-nos sua fuligem
Melancolia adolescente
Creio na fé que ferver em teu altar
Apenas
Peço que o teu peito me guarde
Sibilante mais que
O próximo guincho aquático








Terno o rubor de teu sexo
Funda a pegada de teu desejo
Teus lábios desconcertado nexo
Livres tuas mãos sem pejo


Na guelra fremente de animal pelos próprios gestos
Parido

Na vertigem das esquinas estoirados
Os lábios
Sorriso solene de catedral

Na rocha dos anos coçados
A volúpia no estômago cavo
Do mostrengo sentimental

No fragor bélico da paz o langor de versos inquietos
O derradeiro vagido





Grito escarlate pêndulo de sangue
Revolta a hora no claustro do relógio exangue

Nódulos de carne enredados seios rilhados
Sorrisos de anjo os facalhões extasiados

Cancro angustiado suor gangrena
Mais límpido o desejo que uma noite serena

Nossos ossos crepitando de amor contra as paredes
Redoma de mil passos a distância com que me medes

Na guelra fremente de animal pelos próprios gestos
Parido

Na vertigem das esquinas estoirados
Os lábios
Sorriso solene de catedral

Na rocha dos anos coçados
A volúpia no estômago cavo
Do mostrengo sentimental

No fragor bélico da paz o langor de versos inquietos
O derradeiro vagido






Despojada em sombras fugidias encontro
A orla triste dos dias
Turva cortina papel vegetal
Dedos em fuga decalcam com traço fatal
A morte e o beijo esconso das suas magias


Mancha
Poema que tolhe línguas turva oceanos
Escarpada a carne viva por
Laminados enganos

Copo
Mudo entre as pernas errantes
Lembrança entreaberta a água
De velhos amantes














Mancha
Poema que tolhe línguas turva oceanos
Escarpada a carne viva por
Laminados enganos

Copo
Mudo entre as pernas errantes
Lembrança entreaberta a água
De velhos amantes

































(Didascálias)

(Didascálias)



















Mancha
Poema que tolhe línguas turva oceanos
Escarpada a carne viva por
Laminados enganos

Copo
Mudo entre as pernas errantes
Lembrança entreaberta a água
De velhos amantes























Despojada em sombras fugidias encontro
A orla triste dos dias
Turva cortina papel vegetal
Dedos em fuga decalcam com traço fatal
A morte e o beijo esconso das suas magias













Na guelra fremente de animal pelos próprios gestos
Parido

Na vertigem das esquinas estoirados
Os lábios
Sorriso solene de catedral

Na rocha dos anos coçados
A volúpia no estômago cavo
Do mostrengo sentimental

No fragor bélico da paz o langor de versos inquietos
O derradeiro vagido





Grito escarlate pêndulo de sangue
Revolta a hora no claustro do relógio exangue

Nódulos de carne enredados seios rilhados
Sorrisos de anjo os facalhões extasiados

Cancro angustiado suor gangrena
Mais límpido o desejo que uma noite serena

Nossos ossos crepitando de amor contra as paredes
Redoma de mil passos a distância com que me medes










Quebra as janelas crepusculares
O vento dos sinos

Melífluo em minha pele dormente
O beijo dos insectos

Enreda indigestos meus sonhos tua voz
Poeira amarga

Precioso o hálito solitário de minhas ilusões
Saliva dos teus sentidos

No dorso do meu mundo arrepiada
Miríade de demónios alados




Disfórica a nora revolve os dias a hora
Sozinha que tu alumias
Lúbrico fantasma da luz estilhaçada no vão da
Noite
Quer emprestar-nos sua fuligem
Melancolia adolescente
Creio na fé que ferver em teu altar
Apenas
Peço que o teu peito me guarde
Sibilante mais que
O próximo guincho aquático








Terno o rubor de teu sexo
Funda a pegada de teu desejo
Teus lábios desconcertado nexo
Livres tuas mãos sem pejo



















Mancha
Poema que tolhe línguas turva oceanos
Escarpada a carne viva por
Laminados enganos

Copo
Mudo entre as pernas errantes
Lembrança entreaberta a água
De velhos amantes























Despojada em sombras fugidias encontro
A orla triste dos dias
Turva cortina papel vegetal
Dedos em fuga decalcam com traço fatal
A morte e o beijo esconso das suas magias













Na guelra fremente de animal pelos próprios gestos
Parido

Na vertigem das esquinas estoirados
Os lábios
Sorriso solene de catedral

Na rocha dos anos coçados
A volúpia no estômago cavo
Do mostrengo sentimental

No fragor bélico da paz o langor de versos inquietos
O derradeiro vagido





Grito escarlate pêndulo de sangue
Revolta a hora no claustro do relógio exangue

Nódulos de carne enredados seios rilhados
Sorrisos de anjo os facalhões extasiados

Cancro angustiado suor gangrena
Mais límpido o desejo que uma noite serena

Nossos ossos crepitando de amor contra as paredes
Redoma de mil passos a distância com que me medes










Quebra as janelas crepusculares
O vento dos sinos

Melífluo em minha pele dormente
O beijo dos insectos

Enreda indigestos meus sonhos tua voz
Poeira amarga

Precioso o hálito solitário de minhas ilusões
Saliva dos teus sentidos

No dorso do meu mundo arrepiada
Miríade de demónios alados




Disfórica a nora revolve os dias a hora
Sozinha que tu alumias
Lúbrico fantasma da luz estilhaçada no vão da
Noite
Quer emprestar-nos sua fuligem
Melancolia adolescente
Creio na fé que ferver em teu altar
Apenas
Peço que o teu peito me guarde
Sibilante mais que
O próximo guincho aquático








Terno o rubor de teu sexo
Funda a pegada de teu desejo
Teus lábios desconcertado nexo
Livres tuas mãos sem pejo

Areal das Fragas

O velho Ford Escort rugia no asfalto nocturno. A cento e cinquenta quilómetros por hora, tentava a todo o custo corresponder às ordens velozes da sua condutora, derrapando perigosamente no assobio das curvas, desafiando a orla da morte.
Entrando avidamente na vertigem da noite profunda, três jovens seguiam no carro: a condutora, transfigurada pelo gozo da velocidade; o seu amigo, salivando sonhos inquietos, acordando de quando em quando para beber uns goles de cerveja ou para perguntar onde estavam; e, encolhida e muda no banco de trás, um corpo jovem de mulher que parecia ter sido ali esquecido por alguém.
Era uma noite sufocante de Agosto. O alcatrão mole parecia agarrar os pneus gastos do carro, impedindo-o de avançar. Ao longe, pela floresta de pinheiros rasgada pela auto-estrada, vislumbravam-se línguas de fogo lambendo o céu escarlate.
A adolescente, transida de angústia, resguardada por um obstinado silêncio dos dois estranhos que seguiam no banco da frente e arrepiavam caminho com furor, sentia aquele fogo distante lamber directamente o seu coração e espasmar o seu corpo entorpecido. Na sua pele rubra ardia a expectativa. Depois de chegada à terra natal da jovem rapariga que lhe havia concedido boleia e onde esta e o companheiro esperavam assentar uns tempos em casa de familiares, tudo seria incerto.
Valeria a pena ficar por lá também, onde ninguém a conhecia, onde podia tentar pedinchar por um cantinho para dormir, só até arranjar um emprego? Ou o melhor seria ficar algures pelo caminho, num lugarzito isolado que lhe parecesse acolhedor?
No fundo, era-lhe indiferente. As saudades de casa anestesiavam o dilatar de qualquer mínima preocupação e seguir sempre, sempre em frente era o melhor remédio. A única maneira de se embrenhar a tal ponto numa outra vida, de modo a não ter coragem de voltar, já uma estranha e já velha, à casa familiar.
O seu pensamento era unicamente consumido pelas memórias, que já nem tentava suprimir, dos dias sólidos, de uma tão neutra felicidade. Ia à escola, tomava café com outros amigos ociosos nas tardes livres, boas refeições a esperavam em casa. E a mãe, sempre preocupada, apertando-a contra o seio opressivo. Ah, mas daria tudo, a sua liberdade casmurra e dolorosa, para estar com ela nesse momento, dormir um pouco no seu colo, deixar que ela lhe secasse as lágrimas, ouvir as suas advertências, os planos com que ela delirava para o seu futuro. Tudo isto com um sorriso terno e dócil nos lábios.
Não, não se arrependia de ter deixado a casa segura e confortável dos pais, onde a vida decorria sem sobressaltos, para conhecer o seu punhado de mundo, a quota de universo que a desafiava, com a roupa do corpo e os bolsos e a alma vazios. Queria uma morte sinestésica na volúpia dos dias despojados. Para tentar compreender o que quer que fosse que não compreendia, cujo nome nem estava sequer certa de saber. Aquilo que a fazia dizer certas palavras em certos momentos. Impulsos e desejos que não controlava, que sem motivo a comandavam. E a resposta a tudo isto não poderia estar contida nos mesmos rostos que a sempre a rodeavam, que de tão insistentes se tornavam esbatidos e confusos, nos mesmos gestos mecânicos e sem sentimento, desprendidos. Naquela vida de absorta felicidade, nem ódio nem paixão.
Olhou a condutora pelo retrovisor. Ela permanecia fixa na estrada, tensa e atenta, gozando gulosamente cada momento da noite, cada pedaço da estrada, cada golpe do volante.
- Que foi? Queres uma cerveja, é? – perguntou, condescendente, quando sentiu pregado no seu o olhar da rapariga – Sandro, dá-lhe uma cerveja!
Acordado com uma cotovelada brusca e com a voz forte da companheira, o rapaz pôs-se a grunhir mal disposto:
- Porra, pá! Logo agora que eu estava a sonhar com o meu pai, foste acordar-me...
- Pois, pois! Estavas a ter sonhos porcos com alguma menina das estações de serviço, isso sim.
- Cerveja não há. Nem cigarros. E, por falar nisso, já comia qualquer coisinha. – deu estalidos com a língua e esfregou a barriga frouxa, para mostrar a sua fome. Depois, parateatral e com voz tremula, declarou: – E, Bruna, sabes bem que não gosto que brinques com a memória do meu pai, que Deus o tenha!
- Bom, - disse Bruna fazendo uma curva brusca, no ultimo momento, para sair da auto-estrada e entrar na localidade mais próxima – Areal das Fragas, diz a tabuleta. Parece-vos bem? Vamos parar para abastecer.


O carro parou em frente à sombra decrépita de uma estação de serviço. A bomba de gasolina seca e enferrujada, o esqueleto quebrado do que havia sido um reclamo luminoso à marca de gasolina. Apenas um poste de iluminação pública fazia com que um fiozinho tímido e reticente de luz se espraiasse sobre a estação.
Em volta, um pequeno aglomerado de casas toscas, de olhos tensos e atentos crivados no mar, no sustento. Varandas e pinturas corroídas pelo bafo eloquente do mar. Telhados esfolados pelo sol ardente e febril de Verão. A pobre e escassa iluminação envolvia o lugar adormecido numa penumbra cúmplice e acolhedora.
A adolescente imaginava com ternura e inveja a vida de um pescador pobre e solitário, habitando sozinho a sua cabana feita de tábuas de navios naufragados e de velhas redes, caminhando altivo pelo areal, sem contas a prestar nem bons dias a rosnar a ninguém senão à própria sobrevivência. O seu ventre foi percorrido por um aceno breve e intenso. O sentimento, tão doloroso de real, de felicidade procurada e encontrada, revelada pelo acaso certo, afluía ao seu sangue.
Eram quatro horas da manhã. As mulheres dormiam, os homens demandavam os mares em busca de peixe, de pão. Ou talvez esta fosse apenas uma aldeia fantasma. Se algum médico sem escrúpulos os tivesse raptado a todos um por um, e os tivesse deixado moribundos e sem um rim em banheiras com gelo, para depois vender os seus órgãos e fugir para o Brasil, quem notaria? Se uma qualquer seita os tivesse usado para um qualquer sacrifício, os tivesse supliciado em nome de deus ou de satanás, quem os lamentaria? Talvez nem mesmo alguém soubesse da existência daquele sítio.
Mulheres e crianças dormiam, e na praia não eram vistos bêbedos ou amantes, somente o rasto nu dos barcos rotos perdidos algures na noite.
A estação de serviço ficava em frente ao areal, do outro lado da estrada. Os viajantes saíram do carro e encararam o mar sub-reptício, as suas ondas surdas e submissas revolvendo, ao longe, a areia fria. No meio da imensa palidez da praia, um gigantesco labirinto de fragas negras que se contorciam como raízes sedentas em direcção ao céu inflamado, imóveis e gélidas como almas in aeternum.
Por momentos, os três permaneceram em silêncio, admirando aquela bizarria bruta da geografia natural. A jovem sentiu o seu ser trespassado e as suas entranhas dormentes solenemente expostas pela visão acutilante daquelas fragas longas, feitas de pedra e treva.
- Então? – resmungou Sandro – come-se ou não?
Ousaram romper o sono da luz torpe do café da estação e esperaram meia hora pelos cafés e pelos bolos. Enquanto o casal comia, sôfrego, a rapariga fumava, ardendo em calor e sufocando numa angústia sem nome. Observava desinteressada o grupo de rapazes que bebia e conversava nas traseiras da estação, na orla de um pequeno pinhal, e onde estavam estacionados três camiões de carga com reclamos de empresas estrangeiras.
Eram seis rapazes e levantavam as garrafas de cerveja, riam e davam pontapés tontos no ar. Girando sobre si mesmos, atiravam punhados de areia uns aos outros e riam.
Na rádio que o sonolento empregado de meia idade, enroscado ao balcão como um gato friorento e desconfiado, havia ligado entretanto, um velho e empoeirado fado tocava. As guitarras ressoando estridentes e ligeiras, tristes. A voz fatalista, jorrando altiva como sangue nobre. O redemoinho da noite que se dissolvia lentamente na língua fria da madrugada.
Lá fora, os olhos esfumados dos rapazes flamejavam, rubros como o dia nascente que tremeluzia. Parecia-lhe que todos lhe deitavam, por entre o seu riso estrangulado pelo álcool, olhares furtivos e intensos. Todos pareciam convidá-la a embrenhar-se com eles no obscuro pinhal. Todos pareciam desejosos de pressioná-la contra o chão com os seus peitos nus e morenos, ansiosos por pregá-la ao tronco rugoso de um pinheiro com os seus braços fortes do trabalho.
Um deles, de camisa preta entreaberta e chapéu de palha, destacou-se do grupo em passo firme. Abriu decidido a porta das traseiras e dirigiu-se para a mesa onde a jovem e o par ceiante, sozinhos na sala, o olhavam curiosos.
O homem teve uma ligeira vénia, tirou o chapéu que lhe escondia o rosto e, dirigindo o olhar cúmplice à rapariga, perguntou:
- A menina tem lume para o meu cigarro?



Aquele verão havia sido, para Cristina, O verão, Aquele verão. Como mais nenhum outro o seria. Uma amiguinha da sua turma da escola havia-a convidado, a si e a outra amiga, para passar umas semanas numa aldeia perdida do interior do país, que por sinal nem no mapa vinha marcada (o que contribuía para que ela duvidasse, por vezes, da real existência desse lugar onde havia sido, por escassos dias, tão feliz), onde os seus pais tinham uma casa de férias.
Aquilo que, de inicio, aparentava ser uma calma temporada de férias numa aldeia sossegada e isolada, onde as casinhas pareciam espontaneamente nascidas da pedra bruta do chão, os cães magros descansavam á sombra raquítica das poucas arvores e as velhas escondiam o rosto curtido pelo sol e amarfanhado pelo trabalho nos campos de oliveiras sob véus negros, tornou-se um confuso correr de dias velozes e intensos, de paixões, álcool, e desejos.
À varanda da casa da sua amiga impunha-se a anatomia imponente da serra, negra e seca como uma grande pedra queimada, plantada entre o céu e a terra, ensombrando os campos de oliveiras.
E conhecera vários rapazes que se reuniam num bar clandestino e que, entre álcool e substancias duvidosas, entre o calor estático daquele verão tórrido, as cumprimentavam com o roçar ilícito de uma carícia: haviam-se deixado encantar pelas meninas citadinas e burguesas, cheias de seiva, aborrecidamente felizes. Entre eles encontrava-se Ismael.
- Está mais crescida. Mais rude e solene. E, contudo, és tu, és mesmo tu a Cristina que eu conheci há quatro anos atrás.
- Por vezes duvido que esta Cristina que agora vês tenha algo em comum com aquela que conheceste e te seduziu há tanto tempo.
- E para sempre.
- Ismael... – sussurrou a rapariga, como que para se certificar de que não se enganava, de que era mesmo Ismael quem tinha diante de si, moreno e duro como as fragas que os rodeavam.
- Lembro-me tão bem quando entraste pela primeira vez na cave da casa do João, que ele usava, o mais secretamente possível, como bar. Parece que te estou a ver: a pele assombrosamente branca em contraste com o longo cabelo negro, os olhos verdes faiscando, o corpo sumptuoso realçado pelos jeans justos e pela camisola sem alças. Tu eras, realmente, um espanto! E o que me endoidece é que estás mais distante e amarga, mas não consegues perder aquela graça de criança curiosa.
- E tu, quanto mais velho estás, mais lábia tens. Muitas devem cair, não? – sorriu a jovem.
- Tu e as tuas duas amiguinhas, - prosseguiu com gozo no olhar negro como o fruto da sua terra natal – à procura de diversões interditas pelos papás...lembro-me que só queriam passeios pelos matos, cerveja e absinto, passear na moto do Ricardo a grandes velocidades...
- E vocês também se divertiram muito às nossas custas. Confessa lá, deixaste a aldeia porquê? Porque depois de termos partido, aquilo passou a ser tremendamente insuportável. Depois de lá te teres divertido tanto comigo era impossível continuar.
- Por isso tentei a minha sorte fora do país e, como não consegui, voltei à boleia com uns amigos.
Cristina lembrou-se, perturbada, dos demónios em troncos nus e olhos flamejantes e dos camiões abatidos pela pressa de asfaltos longínquos.
- Mas tu ainda não me disseste o que fazes aqui, e isso intriga-me verdadeiramente... – disse Ismael afagando o queixo, que Cristina se recordava, ou imaginava agora, era cortante e doce como os espinhos das silvas.
- Decidi que nunca iria viver realmente se não fosse a viajar, nunca me prendendo realmente a nenhum lugar nem a ninguém. E depois, a vidinha burguesa que os meus pais me proporcionavam não me satisfazia. E então, decidi conhecer o mundo com os meus olhos, por minha conta e risco.
- E quem são aqueles poltrões que estão contigo?
- Não sei. Estou à boleia com eles, simplesmente.
- Pareces desencantada...
Cristina não ripostou.
- Queres vir comigo? – disse Ismael muito baixo, mais baixo do que o murmúrio insuspeitado do mar. Abraçou a amiga por trás, e beijou-lhe a nuca - Vem comigo... – continuou a sussurrar, acariciando-a com dedos ávidos.
- Se não o fiz contigo quando nos conhecemos, porque achas que o faria agora? – Cristina disse com voz amarga, mas sem igual repreensão nos gestos.
- Porque nunca mais nos encontraremos.
- Nunca mais?
- Talvez...nunca mais.
Ismael caiu pesadamente sob o corpo suado e frio da amiga, entre as fragas da praia. Já não o reconhecia.
- Houve uma vez em que fomos sozinhos para a margem do rio, quase sempre deserta. Embalaste-me, acariciaste-me. Sem nunca saciar por completo o meu desejo, sem nunca te comprometer a esse ponto...
- Parti no dia seguinte.
Cristina entregou-se sem resistência ao abraço firme e aos movimentos familiares daquele que não tinha já a certeza de conhecer.
- O teu corpo está muito mais apaziguado agora. Adorava a turbulência da tua pele, das tuas ancas, dos teus braços fortes como escudos. - com os lábios secos abria passagem pela pele dela, dilacerada por aquele indecifrável desejo.
O casal que dava boleia a Cristina chamava-a, algures ao longe. O camionista bêbedo que tinha Ismael como companheiro vomitava e dizia palavrões, entrecortados por berros do seu nome.
Lá em baixo, galgando trémulo o areal, o mar despertava lentamente, roçando já, ameaçador, na inquebrantável muralha de fragas negras e gastas. Os pescadores chegavam em seus barcos heróicos, com gritos frustrados e gloriosos.
O corpo suado e fremente de Ismael, gemendo e contorcendo-se sobre o seu, camuflados ambos na areia lívida entre o infernal labirinto de fragas imensas e horrendas, monstros cristalizados na agonia da morte, que rasgavam o calor rosado e tíbio do céu. O dia irrompia célere. A lucidez amnésica do momento.
Cristina não sabia quem era. Não sabia se sentia medo, prazer...nenhum dos dois. Esperou que o hálito ofegante de Ismael sobre o seu pescoço cessasse e então conteve a respiração. Escancarou os olhos; fixou em nada o olhar mudo como um relógio parado.
Ismael chamava-a em surdina, zurzia com desespero a placidez gélida do seu corpo; escutava-lhe a respiração e o galopar secreto do coração. Cristina sentiu então o amante choramingar de terror. Dispersava-se pela areia o som de passos aflitos, fugia e desaparecia.
Ouviu as pesadas rodas de um camião derraparem apressadas na estradas. Seguiu-se-lhe o ronco do velho Ford em fuga, que atroou a manhã lenta do lugarejo. Cristina decidiu permanecer, inerte de gozo e alivio, entre as fragas que agora se lhe afiguravam como protectoras. Mil sóis ternos e mornos resplandeciam no seu horizonte, brilhavam num céu desanuviado, íntimo e azul. Tentou compreender, com o seu olhar imóvel e fixo, o mistério do nascer do dia, do correr do tempo. A insondável razão da sua existência. Ficaria o tempo que achasse necessário. Talvez até morrer e não mais precisar de compreender nada.




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